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El Niño testa lavouras,cidades e a capacidade de reação do poder público

Estradas rurais, drenagem urbana e redes elétricas precisam de proteção que vá além de reuniões e avisos

Fonte: José Cândido / CAMPO GRANDE NEWS

Árvore caída após temporal: chuvas e ventos fortes colocam à prova a prevenção e a capacidade de resposta nas cidades. (Foto Campo Grande News)

A chuva que encharca o campo e invade as ruas coloca Mato Grosso do Sul diante de uma pergunta que nenhuma palestra responde sozinha: quanto dos alertas sobre o El Niño foi transformado em proteção para a população? Reuniões, previsões e comunicados têm importância. Mas a eficácia da prevenção aparece em outro lugar: na estrada rural que continua transitável, na casa que não recebe enxurrada, na árvore que foi avaliada antes de cair e no serviço essencial que permanece funcionando durante uma tempestade.

O risco foi anunciado com antecedência. Em setembro, o painel elaborado por instituições como Inmet, Inpe e Cemaden já indicava maior probabilidade de chuvas acima da média em parte de Mato Grosso do Sul, além da continuidade do El Niño até pelo menos o início de 2027. Havia, portanto, informação disponível para orientar a preparação.

O fenômeno resulta do aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial, capaz de modificar a circulação atmosférica e a distribuição das chuvas. Em MS, seus efeitos variam: segundo a UFMS, o sul do Estado tende a receber mais precipitação, enquanto outras regiões podem apresentar comportamento irregular. Isso exige cuidado ao analisar os estragos. A presença do El Niño não permite atribuir automaticamente cada temporal ao fenômeno, nem esperar consequências iguais em todos os municípios.

No campo, água em excesso também pode significar prejuízo. Solos encharcados dificultam o trabalho das máquinas e podem atrasar o plantio, comprometendo o calendário da produção. Conforme a cultura e sua fase de desenvolvimento, chuvas persistentes favorecem doenças e dificultam a colheita. A Ceasa/MS já alertou para possíveis perdas em frutas e hortaliças, obstáculos ao transporte e reflexos no abastecimento.

O problema ultrapassa a porteira. Quando uma estrada vicinal fica intransitável ou uma ponte é comprometida, a dificuldade atinge o escoamento da produção, o transporte escolar e o acesso a serviços. O pequeno produtor, com menos recursos para absorver perdas e reorganizar a atividade, pode enfrentar uma situação especialmente difícil.

É nesse ponto que a prevenção precisa ser avaliada concretamente. Quais estradas receberam manutenção antes das chuvas? Quais pontes e bueiros foram inspecionados? Quantos agricultores receberam assistência técnica para ajustar o manejo e reduzir riscos? Orientações gerais precisam chegar à propriedade e considerar o solo, a cultura e as condições de cada região.

Nas cidades, a tempestade testa uma estrutura que deveria estar preparada antes do primeiro alerta. A água encontra ruas impermeabilizadas, sistemas de drenagem e ocupações próximas a córregos. Onde essa estrutura é insuficiente ou está mal conservada, uma chuva intensa pode rapidamente se transformar em transtorno e perigo.

Árvores e redes elétricas também exigem trabalho antecipado. Em reunião realizada em 14 de setembro, a Prefeitura de Campo Grande informou que monitora cerca de 10 mil árvores e discutiu a integração desses dados com a Energisa para priorizar intervenções. O encontro tratou ainda de geradores e planos de contingência. São iniciativas pertinentes, cuja execução precisa ser acompanhada: quantas árvores classificadas como críticas receberam intervenção e quais serviços estão efetivamente protegidos contra interrupções?

Há outras medidas anunciadas. A rede municipal de ensino divulgou protocolos para eventos extremos, com orientação sobre identificação de riscos, comunicação e locais seguros. O governo estadual informou manter bases avançadas, aeronaves e tecnologia para enfrentar incêndios florestais, outra ameaça associada à irregularidade climática. Esses registros impedem afirmar que nada foi feito. Entretanto, anúncios de preparação, isoladamente, não demonstram que a proteção seja suficiente para a dimensão dos riscos.

A avaliação do Estado e dos municípios deve considerar orçamento executado, serviços concluídos, áreas atendidas e capacidade de resposta. Limpeza de drenagem, manutenção de estradas, inspeção de estruturas, assistência ao produtor e proteção de famílias vulneráveis precisam ter responsáveis e prazos. A população deve conseguir saber o que foi realizado e o que continua pendente.

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